Relatos de um (quase) ex-Misofônico – 1

Duas fotos, dois momentos

O primeiro momento, à esquerda, estava na apresentação de Natal da turma de Alfabetização, na escola onde iniciei meus estudos. Neste dia estava com febre e com a garganta inflamada. Eram dias que vivenciei uma infância alegre, tranquila e bastante ruidosa, como deveria de ser. 
No segundo momento à direita, já havia se passado pouco mais de quatro meses desde a primeira foto. Estava no pátio externo de minha casa, registrando numa brincadeira, como eu reagia quando assobios me incomodavam. Essa foto foi um registro, cerca de vinte dias, após manifestar sintomas de incômodos auditivos a sons específicos.

Dois momentos: antes e depois da MisofonO inícioia

O início

Em março de 1977, cerca de um mês após completar os sete anos, passei por um procedimento cirúrgico para extração das Amígdalas. Desde muito cedo elas inflamavam com frequência e eu era acometido por episódios de febre de trinta e nove graus (39 ºC), insistentes e que ocasionalmente me causavam um delírio desagradável, como se sentisse o atrito causado pela textura de alguns objetos passando por dentro de minha cabeça.
A cirurgia foi prescrita pelo pediatra que me atendia e realizada no Hospital da Beneficência Portuguesa. Antes da cirurgia, na enfermaria, pude conversar com outra criança que também ia passar pela mesma cirurgia e haviam outras que estavam internadas por diversos motivos. Todos os pais e enfermeiros repetiam que no dia seguinte eu já estaria bem e poderia tomar sorvete. Então entrei na sala de cirurgia e 3 segundos após a anestesia geral, apaguei.
Acordei saindo da sala de cirurgia, com sangue na boca e nariz e passei à noite na enfermaria. No dia seguinte fui pra casa, não conseguia comer nada e todos os sons estavam doendo nos ouvidos…fiquei um mês assim, até que os sons pararam de doer e a inflamação cedeu. Contudo comecei a perceber que em duas situações eu sentia um incômodo: o assobio do meu irmão e um som que eu nunca tinha percebido antes, o de limpar os dentes por sucção ou simplesmente – chupar os dentes.
Outras pessoas que conheci e que também passaram por esta cirurgia, não relatavam um período de recuperação tão complicada. Naquela época, ficavam em casa por um período breve e pronto. Contudo, não conheci ninguém que tomou sorvetes um dia após extrair as amígdalas. Eis aqui uma breve análise sobre como tenho lidado com Misofonia – gatilho a gatilho, considerando as hipóteses que venho estudando e são citadas nos mais diversos estudos acadêmicos sobre Misofonia e é claro, a minha percepção sobre cada gatilho considerando sua evolução em mim desde o início.
Para os estão conhecendo Misofonia agora, Gatilho – é um som específico que inicia, de forma exagerada, as respostas aversivas como angústia, raiva, ódio e outras emoções negativas. Eu nunca cito que é um “barulho”, pois na minha percepção isso confunde com Hiperacusia, que depende mais da intensidade ou da tonalidade do som.